Mulher viveu seis meses com o cadáver do pai em casa

O Tribunal de Leiria começou a julgar uma mulher que cobriu o cadáver do progenitor “com café e chocolate em pó”. Ministério Público pede uma «medida de prevenção».

Mulher viveu seis meses com o cadáver do pai em casa

O Ministério Público de Leiria pediu esta quinta uma “medida de prevenção” para a mulher acusada dos crimes de profanação do cadáver do pai, burla tributária e burla informática, que viveu seis meses com o pai morto. O Tribunal de Leiria começou a julgar uma mulher, que viveu com o cadáver do pai em casa durante seis meses. Foram ouvidas todas as testemunhas e feitas as alegações finais.

Segundo o MP, a acusada sofre de Psicose Esquizofrénica Paranóide Crónica, “caracterizando-se por apresentar um pensamento totalmente centrado numa temática paranóide confusa e abrangente, agravada pela presença de alucinações auditivas e com total ausência de crítica para a sua situação clínica e para a necessidade de tratamento”, que havia recusado.

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Prova resulta dos testemunhos e dos factos que constam no processo

A arguida é “perigosa, tendo demonstrado tal perigosidade pelo risco elevado no cometimento de factos semelhantes aos dos autos, considerando a patologia que padece e, pela dependência da mesma do cumprimento de medidas terapêuticas adequadas que não são aplicadas de ‘motu’ próprio pela mesma”, pelo que lhe foi aplicada a medida de “segurança de internamento por força”.

O procurador do Ministério Público entendeu que se “fez prova, que resulta dos testemunhos e dos factos que constam no processo”. “A arguida deve ser condenada pela prática dos crimes de que está acusada e poderá ser aplicada uma medida de prevenção”, salientou o procurador. A advogada de defesa pediu justiça, “perante os factos e os testemunhos, sobretudo o do irmão e da sobrinha, e os factos descritos na acusação”.

 Vizinhas referiram ao coletivo de juízes que nunca se aperceberam de nada estranho

O irmão e a sobrinha da arguida, que esteve ausente da sessão, explicaram ao tribunal que estranharam o facto do veículo de o idoso estar estacionado vários meses no mesmo sítio e pediram à PSP para se deslocar a casa do mesmo.

As vizinhas referiram ao coletivo de juízes que nunca se aperceberam de nada estranho. Uma afirmou que sentiu um mau cheiro, mas atribuiu-o aos canos. Outra adiantou que a arguida tinha sempre as janelas fechadas e até pensou que fosse uma “acumuladora”, sentindo um “cheiro a café e a tabaco”.

Esta testemunha, que trabalha num café que a arguida frequenta “quase diariamente”, adiantou, ainda, que a acusada é uma “pessoa desequilibrada” e que costuma “ofender os clientes”. “Já tivemos de chamar a GNR”, disse.

Denúncia partiu da neta do falecido

Segundo o despacho de acusação, o inquérito teve origem numa participação da PSP em 17 de junho de 2017, dando conta que no dia 16 de junho de 2016, no interior da residência da vítima, em Caldas da Rainha, distrito de Leiria, foi encontrado o corpo de um homem de 87 anos, em avançado estado de decomposição, refere o despacho de acusação do Ministério Público.

A denúncia partiu da neta do falecido, sobrinha da arguida, que, “após ter conhecimento de que o veículo do avô estava estacionado no parque de estacionamento, há bastante tempo, com sinais de abandono e sem pagamentos em dia, contactou a PSP das Caldas da Rainha”.

Após a investigação, o MP refere que “não foram encontrados sinais de arrombamento, a porta da entrada estava trancada, o corpo foi encontrado deitado no chão da cozinha coberto por pó de cor castanha e a porta da cozinha estava fechada à chave pelo lado do corredor, com a chave na porta”.

Arguida usou a pensão do pai para fazer compras

“Não foram observados indícios da intervenção de terceiros”. Sem provas de que possa ter ocorrido um crime de homicídio, o MP arquivou o inquérito “nesta parte”. No entanto, o MP acusou a filha da vítima do crime de profanação de cadáver, uma vez que terá vivido com o pai morto em casa, pelo menos, seis meses.

Segundo o despacho, antes de dezembro de 2015, a arguida foi residir com o pai, que era beneficiário de uma pensão de aposentação no valor mensal de 1167,20 euros. Após a morte do pai, “em data não apurada”, a arguida cobriu o corpo da vítima “com café e chocolate em pó” e continuou a viver na referida residência, onde se encontrava o corpo sem vida do pai, até pelo menos janeiro de 2016, sem nunca dar conhecimento da morte deste.

A pensão do pai continuou a ser depositada na conta deste, tendo a arguida utilizado esse dinheiro para fazer compras.

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