O lobo não é mau: uma história de desproteção da Natureza
O lobo desempenha um papel essencial nos ecossistemas europeus. Como predador de topo, ajuda a controlar as populações de herbívoros, evitando a degradação dos habitats naturais.

Ao longo da história, as políticas públicas têm sido essenciais para proteger a Natureza, desde a criação dos primeiros parques nacionais no século XIX até aos atuais acordos internacionais sobre as mudanças climáticas e a biodiversidade. No entanto, nos últimos anos, muitas dessas políticas têm sido enfraquecidas ou até revertidas, devido à pressão de certos setores económicos, à polarização política e à disseminação de desinformação. Um dos exemplos mais preocupantes é a tentativa de reduzir a proteção do lobo na Europa.
Nos últimos dois anos, a União Europeia tem vindo a pressionar para desproteger esta espécie, apesar da falta de fundamentos científicos para tal decisão. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, fez história – mas não pelos melhores motivos – ao ser a primeira líder da Comissão a propor a redução do estatuto de proteção de uma espécie. Agora, o próximo passo parece ser o enfraquecimento da Diretiva Habitats, legislação europeia que protege espécies ameaçadas e os seus habitats naturais, garantindo que não sejam destruídos ou explorados de forma insustentável.
O lobo desempenha um papel essencial nos ecossistemas europeus. Como predador de topo, ajuda a controlar as populações de herbívoros, evitando a degradação dos habitats naturais. Além disso, é um grande atrativo para o turismo de Natureza. Já lá vai o tempo em que os lobos eram vistos apenas como um perigo para quem vivia nas zonas rurais. Em vários países europeus, a sua recuperação tem sido acompanhada por medidas de compensação para produtores de gado que sofrem perdas ocasionais, provando que a convivência entre humanos e vida selvagem é possível.
“Sejamos claros: reduzir a proteção do lobo é um erro. A Natureza e a biodiversidade precisam de ser defendidas, não enfraquecidas”
Infelizmente, estas novas decisões políticas podem pôr tudo isso em risco. Em Espanha, por exemplo, o Parlamento aprovou recentemente a caça ao lobo a norte do rio Douro, com a justificação – cientificamente infundada – de que estes animais causam desperdício alimentar.
Em Portugal, os últimos dados sobre o lobo-ibérico mostram que a situação desta espécie tem vindo a agravar-se. Mesmo assim, o Governo português apoiou a decisão de reduzir o estatuto de proteção do lobo a nível europeu, argumentando que isso não teria impacto direto no País, já que temos legislação própria para a sua conservação. Mas esta justificação não se sustenta: Portugal dificilmente conseguirá escapar à pressão para enfraquecer as suas próprias regras ambientais e, além disso, quando falamos de espécies transfronteiriças, como o lobo-ibérico, não há fronteiras políticas que impeçam os impactos negativos. Se em Espanha os lobos forem abatidos, a sua população diminuirá e isso afetará inevitavelmente a espécie também em Portugal.
Sejamos claros: reduzir a proteção do lobo é um erro. A Natureza e a biodiversidade precisam de ser defendidas, não enfraquecidas. Ao contrário do que alguns querem fazer crer, o lobo não é o vilão da história e desprotegê-lo não resolve os problemas socioeconómicos da Agricultura ou das comunidades rurais. Mais do que uma escolha, a sua proteção é uma necessidade para garantir o equilíbrio do Planeta. Cabe-nos, a todos, fazer ouvir a nossa voz e exigir que a conservação da Natureza continue a ser uma prioridade nas decisões políticas.
Ângela Morgado,
Diretora Executiva da WWF Portugal
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